INTEMPESTIVO

Tomo Coca-Cola com café,
A mãe do Red Bull com wisk.
Inspira-me à reviravolta do desatinado juízo,
Soltando o incrédulo súdito do tempo,
Este meu outro eu mais realista.

Nelci Nunes - O Falador.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

QUANDO A SORTE VOA - Nelci Nunes - O Falador.







             QUANDO A SORTE VOA

               Nelci Nunes - O Falador



Saio à noite.
Ando sem rumo,
O casario passa por mim,
Segue lento, mal iluminado.


Mordo algumas pulgas,
Em busca do tempo perdido,
Teria sido mais feliz,
Depois do primeiro passo atrás.


Estou sendo fumado pelo tempo,
Lembranças monótonas, ruins.
Os mortos não sossegam de dia.
Viajam cada vez mais vivos,
Entre um silêncio e outro.


Aqui é proibido fumar.
Este depenado companheiro,
Solidário, traga-me aos poucos.
Viajo escondido na sua fumaça,
Incrédulo, desapareço em plena luz diurna...

terça-feira, 28 de maio de 2013

O BEIJO - Nelci Nunes - O Falador.


                                 O BEIJO

                   Nelci Nunes - O Falador.

Salário mínimo,
Beijo fatal,
Alta tensão, portal do inferno.

Todos os dias,
Sem cessar,
A gana pelo pão.

Última noite,
Pensas em atentar contra ti,
Mas segues a ferro frio.

Engoles mais um insulto,
Dorme com ele,
É o alento ao qual te acostumastes.

No teu canto,
Sem capital plausível, és senhor.
Dono do parco mundo que o limita.

Porque Deus salva, mas o álcool alivia.

sexta-feira, 24 de maio de 2013




A FUGA
Nelci Nunes - O Falador.
Preciso fugir de casa.
Venho alimentado esta ideia.
A idade provoca estranhos surtos.
Vejo-me desaparecendo a qualquer  momento.

A pequena casa fica imensa.
Em cada parede uma tela de cinema.
Minha vida passando em cenas,
Imagens que procuro esquecer.

Sabedoras de todos os caminhos,
Enganam-me todas as vezes que as deixo;
Para em outro instante voarem,
Na minha mente, muito mais bravias.

Não preciso de novo amor,
O que tenho possui vida própria,
Caminha bem quando não estou,
É conhecedora dos instantes de presente ausência...

Necessito ganhar mundo...
Estou cansado de voar sem asas,
Para em pouco tempo, sóbrio;
Repousar desanimado no mesmo lugar.

BRAVA GENTE - Nelci Nunes - O Falador.




BRAVA GENTE

Nelci Nunes - O Falador.

País do oba!
Oba de Obá,
Brasília, terra de boas,
Politicalha de grapa,
De baobás.
O povo, coitado!
“Só de boa!”

Oba!
Vou votar,
No Baobá de Obá,
Usarei minha mortalha,
Indumentária Oba.
Nesse rápido “acesso”,
O povo, esfolado,
“Só de boa!” E “ nada”...

quarta-feira, 15 de maio de 2013


AUTO POEMA DE SUBLIMAÇÃO


Nelci Nunes - O Falador. 

Do leito, quase inerte, eu divisava o pátio interno do hospital,
Os coloridos gerânios balançavam ao som do vento...
                               [Alguém ria no final do corredor.
Parece que eu estava de saída,
Quando pairando, olhei para o meu encolhido ser...
                                 [Estranho estado de serenidade!
O silêncio fustigado pela enfermeira acompanhando o médico,
Ele informa ao familiar: __ Sinto muito...
                                 [__Afetuosa enfermeira, chamava-me de Velho Fogoso.
Após a constatação do óbito, observei:
Foram desligados os paramentos e as sondas...
                                 [Os aparelhos, o oxigênio em uso.
Feita a higiene corporal necessária,
Procederam aos curativos oclusivos...
                                [Drenagem de secreções e excreções.
Depois do preparo, o formulário fixado no tórax,
Hirto, envolto numa camisola que não é de linho ou seda de camisa...
                                 [Medonha escuridão do lençol a me cobrir.
Mais um formulário pregado,
E toda aquela montoeira de guias...
                                 [Guiado fui, em gélida maca ao necrotério.
A papelada jaz num arquivo,
Fatos relatados, pertences listados, providências...
                                 [Resto de família chorosa.
Finalmente a desinfecção do leito,
E invisível, pela janela eu fugia...
                                 [O leito dobrado, úmido, aguarda o próximo cliente.
Fazia um dia tão magnífico, que me  deu vontade,
De ficar perambulando pelos ares...
                                 [Ir além do infinito e serenar mais um pouco...

sexta-feira, 10 de maio de 2013




O COMPADRE MANÉ DE LANA

                                               Nelci Nunes - O Falador.


O COMPADRE MANÉ DE LANA

Mata adentro, Jeremias ia pensativo, calmo. O malfeito, pesaroso. Ele, sabedor de que isso aconteceria, tinha a coisa remoída, inconsciente. Pareceu-lhe desta maneira; qualquer dia... Rumava pelo mato, fazendo trapaças, desajustes, lamúrias com o pensamento, procurando enganar a si mesmo. Queria esquecer, não via jeito. Olga surgiu agora como uma mulher fogosa, dona do seu nariz. Via a situação áspera, calejada, verdadeira pisadura de animal. Gostava do seu canto sossegado, sem botar briga com ninguém. Mas a mulher o metera nestes panos sujos. A coisa se fez recalcada demais pra ser esquecida. Temia que fosse o seu sobrinho o traidor. Talvez, algum dia, mas a desfeita seria pior. Desconfiança não, certeza.
Contornou uma das curvas do córrego, atravessando por sobre enorme peroba tombada. A água corria feito um cordão; cristalino, refletia o sol. A luminosidade passava por entre a copa das árvores. De repentina, surgiu, a inesperada e indesejada vontade de chorar. Segurou o quanto pode e firme...
Passou pelo engana bode ao lado do mata burro, o rancho do compadre Mané de Lana não estava longe. Havia ficado tanto tempo perambulando pela mata que não percebeu a noite chegar. As lamparinas iluminavam o casebre. A luz trêmula, clarão dos pavios, saía pelas frestas. Silêncio; aproximou-se calado, não bateu palmas, costume, mas deixou de lado. Refez o semblante, teve dúvida, quis recuar, notou que, era tarde para isso. Homem de palavra, não seria desta vez que os burros entrariam na água. Resolvido, andara muito
pela mata, matutou demais.
O compadre Mané de Lana é homem sistemático. Os animais em seu terreiro morriam de velhice. Ninguém ousava matar uma galinha do seu quintal. Comadre Ana, quando queria comer o bicho, comprava do vizinho, limpava por lá mesmo, depois, trazia pra casa. Temia. Pavor a sangue. Toda vez que falava, repetia a mesma fala. Mané de Lana tinha um fraco. O dia que não fazia barganha passava aborrecido. Matava porcos contra a sua vontade, a coisa acontecia por exigência das trocas. Acreditando não ser o porco bicho de Deus, sofria menos.
Por onde anda, leva a tiracolo um bornal. Dentro, enrolado em papel, envolto por plástico, amarrado com elástico, coberto pelo lenço, vai o seu dinheiro. Na cinta, o facão velho, cabo de chifre, carcomido. O caldeirão pequeno, com tampa presa por tiras de pano, também vai tilintando na cintura. Nunca fazia cerimônia na casa de ninguém, se o chamavam para a boia; nem por modos fazia recusa, destampava o vasilhame e o enchia. Para ele não existia desgraça, qualquer mal sucedido alheio, era coisa do destino, acontecida porque Deus quis. Sem letra e nenhuma vontade de aprender, tinha jeito pra solucionar tudo. Adorava uma eleição. Nesta ocasião ia à cidade acompanhando a mulher. Pura ciumeira, dizia ela. Às vezes forçava a barra para entrar na cabine junto. Levava logo um pito, pois o voto é secreto. A
irritação certeira acontecia quando o mesário pintava-lhe o dedo na hora de assinar. Saía com cara de quem chupou limão. Só não se engana com números, estes ele conhece bem. Ninguém lhe passou manta nenhuma no dinheiro. Vários dias antes da eleição ele treinava escrevendo os números dos candidatos. Aquele que fosse mais falado no Cantão seria o da sua preferência. Sempre fez questão de votar. Pouco lhe importava pra que servia eleição, comparecia a todas.
Comadre Ana conhecia o tipo, sabia como pirraça-lo direitinho. Facilmente causava-lhe alguma irritação. Bastava pedir dinheiro para a coisa toda ir pro melado. Ana só não tolerava a falta de modos do marido. Dizia sempre... Esse sujeito tem que ser mais educado. Quando chamava à porta
dos outros e o dono demorasse a atender, ia entrando de qualquer jeito pela casa procurando morador. Quando davam por ele, aparecia na cozinha, mexendo no bule. Muitas vezes, ralhavam mais que depressa, fazia como quem não escuta. Qualquer dia topa com alguém pelado, vai dar briga.
Sempre, quando faz suas andanças, pensando em visitar parentes ou vizinhos, ela se esquiva, vai apenas pela obrigação de esposa. Aonde ele assenta dilata, conversa com um, perde muito tempo por conta de outro. É palpiteiro, enxerido, mata a mulher de vergonha. Contudo, ela se acostumara às suas manotas...
Jeremias passou as mãos pelo rosto úmido, caminhou até o jirau. A água corria dia e noite trazida por bambus. Seu semblante deveria; talvez, denunciasse a desordem dos pensamentos. Estendeu as mãos calosas passando-as pela água. Lavou várias vezes o rosto. A rala barba começava aparecer. Matutou. Enxugou as mãos e o rosto na fralda da camisa.
Bateu na porta. Mané de Lana veio atender segurando uma lamparina. Abriu de soslaio, ressabiado ergueu a lamparina à altura do rosto de Jeremias. Pensou ter acontecido uma tragédia, não estava acostumado a receber visitas àquelas horas. No Cantão, escureceu é tarde.
O compadre Jeremias sinalizou chamando-o para o terreiro. Mané de Lana mandou a mulher se aquietar que era um particular. Perto do jirau havia algumas imbaúbas. O vento entrecortava-as provocando barulho e queda de folhas. A todo o momento passava ligeiro alguma ave noturna. Distante da
casa certificou-se de que ninguém ouviria a conversa.
 Não fez muitos rodeios, foi logo entrando no assunto que o trouxera de longe. Relatou o atrevimento de Pedro em ir à sua tapera provocar a desonra, por abaixo a sua moral. Talvez, a mulher tenha-se mostrado fraca, mas a presença constante do rapaz também ajudou. Agora a necessidade de reparar o erro sem que a conversa se espalhe. A coisa é mais severa do que parece, o moço montou tocaia, viu a mulher tomando banho. Depois foi para a tapera, usaram o estrado...
Percebendo que, a honra do compadre Mané de Lana fora atingida, ele se propôs a consertar o dano causado ao amigo, impingindo no filho uma tremenda coça. Quis entrar e trazer o rapaz. Jeremias não permitiu. A preocupação era em não deixar a notícia correr. O certo era guardar silêncio e
manter o afilhado bem perto do pai. Olga, será engambelada, sequer perceberá que alguém sabe do acontecido. O afilhado não deve aparecer mais na tapera, nunca.
Houve momento de grande silêncio entre os compadres. Naquele canto perdido de mundo, apenas as aves noturnas... O frio apertava, Jeremias resolveu ir embora. Mané de Lana não tinha onde enfiar a cara. Permaneceu no terreiro durante algum tempo a meditar o malfeito.
Caminhado pela mata escura, Jeremias engolia seco, continha a vontade de chorar. Mesmo que fosse, turrão demais para isso. No seu coração Olga já estava perdoada. Ele era mesmo um fraco. Aquele rapaz dos infernos não deveria mais se aproximar dele.
Ao longe, estranho barulho. Alguma armadilha pra paca pensou... No cercado em forma de gaiola, o lobo guará se debatendo para fugir. A certa distância, usando um galho, abriu a porta. O animal sumiu ligeiro no escuro da mata...
  

quinta-feira, 9 de maio de 2013

ENCENAÇÃO PUERIL, 1968.



ENCENAÇÃO PUERIL, 1968.

                                       Nelci Nunes - O Falador.

Enfim, está morta.
Passada de abandono, de tanta ira,
De tudo quanto detestara.
Amofinou de qualquer jeito, largada.
Evapora veloz, sabe para onde? ... Não ajuíza!
Nunca marejou alguma protelada importância...
Em qual mundico vivia penando em fúteis risadas?
Falida, vai sem rumo, ausente de filosofia pra se agarrar.
Voou solitária, quem jurava ir junto, mentiu.
Nada quis encontrar no eterno imaginário.
A fisionomia horrenda era a que eu, escondido amei.
Sim, este rico, infinitamente pobre, miserável, fui eu;
Muitas vezes por ela, desprezado.
Tudo que possuía veio à custa de crediário.
Caminhava entre mobiliário antigo, mal cheiroso.
Sob chuva, ao anoitecer, na fila, farmácia do governo, rogou abrando.
Vou salgar anúncio no jornal, a cidade deverá inútil, saber...
Definhou aos poucos, solitária, desprezando formalidades.
Deposito vergonhoso, rosas neste chão sapeado, de lápide ausente.


terça-feira, 7 de maio de 2013

EU ANDARILHO




EU ANDARILHO


                                                  Nelci Nunes – O Falador.

Alguns passos diante de mim,
Observo meu eu menino, assustado.
De pé, é madrugada, pouco dormiu.
Tem o nariz grudado na janela de vidro canelado.
Tentando ver sem muito duplicar a verde paisagem.

É a primeira noite na nova casa.
Pequena, quase sem mobília,
Tijolos a vista, ainda em construção.
De vizinhança, escassas moradias.
Árvores e variados arbustos ao redor.

Pouco sono teve...
Quase não se conteve esperando amanhecer.
Quis depressa conhecer, toda a redondeza.
Poucas ruas adiante, distraído, perdeu o rumo.
Assustado, demorou a reencontrar o caminho.

Eu velho, perco-me, ando sem tino,
Fico perambulando pela cidade,
E recorro ao meu eu menino,
Ainda de mesma idade...
Ele sempre me leva de volta ao lar.

Hoje estou velho, repleto de variada história,
Descendo amparado, do tempo, a ladeira.
Caminho devagar na estrada derradeira,
Levo comigo, o velho menino na memória.
Cresci, mas ele me acompanhou a vida inteira. 

INSÔNIA




INSÔNIA

                                                           Nelci Nunes – O Falador.

Doem os dedos,
As unhas estão roídas,
A fome é assustadora,
Enquanto o estômago queima célebre,
Na tentativa de enganar o cérebro.

Há, sempre,
O inevitável cansaço,
O coração pulsando na garganta,
A dor abdominal, o abafamento em horas dadas,
De rotineira, não incomoda mais.

Conto os dias,
Tardias lembranças, muitos se foram...
Todos passam atropelando as horas.
Ano puxando ano, silenciosamente.
Ninguém percebe o sabor de cada tormenta.

Vem o sono diurno,
Da insônia, inimiga das acertadas horas.
A implacável vontade de ficar só,
Ter como amigo apenas o silêncio,
Ocultado na artificial escuridão do quarto.

Se tivesse força, fugia...
Onde houvesse prazer, iria!
Excesso de desejo para solitário divertimento.
Apenas sei que o medo ainda é maior.
Ó carniças, todos querem escapar, mas não podem...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

LAPSO



LAPSO

                        Nelci Nunes - O Falador.


Posso permanecer,
Mais algum ignoto tempo,
Nesta desconhecida porta.
Tenho a mente embargada,
De velhas lembranças que,
Temeroso não ouso refinar.
O lugar de onde venho,
Repousa calado e errôneo,
Em esquecido pensamento...
Jaula óssea deste passageiro corpo.
A porta por onde fugi está fechada.
A escora pode ruir a insondado momento.
Será o início de outra remota,
Despercebida porta de outra porta...
A memória é sabedora,
Mas não revela da viagem,
Qual delas detém a origem;
Origem deste ser entre portas,
De inúmeras facetas.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A SAÍDA



                                                                         A SAÍDA

                                                                                        Nelci Nunes - O Falador.

Todos os dias,
À minha porta,
Vem alguém rogar,
                          [o pão.
Todos os dias,
À minha porta,
Vem alguém buscar,
Alento e pão.

Vou ajudando,
Na medida do possível,
Também necessito de amor,
                                      [e pão.

Hoje,
Fiquei de sentinela,
À porta esperando,
Quem quisesse pão...

Amanhã,
Quem virá,
Pedir-me carinho,
Palavras e pão.

Ontem, sozinho,
Olhava pra’s paredes,
Sem saber a quem,
Distribuir meu pão.
  
Ontem,
À porta,
Saída do meu destino,
Ele veio,
Tão pequenino!
Tinha as mãos sujas,
Os pés descalços.
Ele parou,
Pensei que pediria pão,
Antes de ir embora,
Ofertou-me uma rosa,
Furtada em caminhos da vida,
Em algum jardim de sonho.

Não haveria de ser nada,
Era só um menino...  
        

quinta-feira, 2 de maio de 2013

MIÚCHA





MIÚCHA

Nelci Nunes - O Falador.

Há muito, por aonde ia, Severina não punha a trouxa no alto da cabeça. Chegou sem muita sabença sobre os moradores do Cantão, ou dos que ocupavam a cabeceira. Ela despontou no alto do córrego porque havia perdido o rumo. Para quem errava, de qualquer maneira, o tino impunha algum senso. Nunca pegou gosto em brincar com o perigo. A passada ainda larga; passos de quem não aparenta muito mais idade. Remendos, um para tampar o outro. Sortimento de panos de toda cor, jeito de carregar o que possuía de riqueza.
Bastava. Os pés não perdiam as trincas, mais parecendo chão de barro depois que a água seca. A precata só de vez em quando, pra descanso. A sola muito boa, quase não gasta. Coisa de inigualada estima; tal qual a de São Francisco de Assis. Tisnada de raiva, isso sim! Bastava ver a cachorra com a chinela
na boca pra descer o malho.
Quando metia prosa com alguém, é porque muita necessidade apareceu. Nessas poucas ocasiões, podia-se escutar a rouquidão, perceber o cansaço. Por causa do apego dela, Miúcha parecia que abusava. Esperta demais; qualquer dia sai conversando feito gente, e, Severina ria só de pensar desta maneira. Quando queria mostrar alguma coisa, puxava a velha pela barra da saia. Isto sim, uma admiração. A danada não podia ver uma botina ou pano que, enchia
a boca. Deus sabe, amoitava tudo. Severina se punha de tocaia, até descobrir o rumo de onde ela despontava pra poder desfazer o ninho. Como é que pode! Olga queria ouvir as histórias das andanças de Severina, mas pra velha desembuchar alguma fala custava demais. Não era de ficar indagando da vida dos outros. Quando resolvia prosear, em pouco tempo, encerrava o assunto. Dizia que, “_papagaio velho não pega língua mais...”
Ao meio do dia, sob forte sol, Severina rumou da horta para a tapera trazendo o balaio com as verduras. A boia sem mato e angu não tinha sustança. Vez em quando uma galinha caipira com bastante caldo e farinha de milho. Comida que não pesa na hora do cochilo. Jeremias podia até ficar balançando na cadeira de barriga cheia que, não fazia má digestão.
Neste ínterim de tempo, vinha com o balaio escanchado na cintura, quando foi surpreendida pela cachorra num enorme pulo revirando toda a verdura; com balaio e ela junto. Mal ficou de pé e sentou o sarrafo na direção da fujona. Distante ela vigiava a dona. Ressabiada, abanando o rabo. Severina
largou ofensa sem dó. Olga, da varanda, descansando a mão em cima da barriga, não continha a risada. A velha abaixada pegando os molhos, enchendo numa contrariedade sem tamanho o balaio. Enquanto Miúcha latia em volta. Pensou que, desse jeito a cachorra tinha se zangado. Ficou reparando a boca do bicho, não espumava. Intrigou-se com o que devia ser. Com o sarrafo numa das mãos ia afastando o animal. Restavam apenas algumas verduras fora do balaio e ela latindo cada vez mais. Pos-se de pé para reparar melhor. Foi
quando viu algo escuro em meio à alface. Cutucou, e, saiu uma peluda caranguejeira procurando outro lugar pra esconder. Amassou-a embaixo de uma pedra e foi abraçar a cachorra.
Em casa, fechada no cômodo, foi fazer prece a São Francisco de Assis. Quieta, Miúcha punha a pata por cima do focinho, enquanto esperava a dona sair. De perto do fogão, Olga chamou baixinho. Severina acudiu, tomou das mãos dela a lata com água, atiçou o fogo, a criança chegando. Assim que passou a cachorra fora, ela correu para o roçado. Logo Jeremias amuou na varanda. Estava nos nervos.
Os dias voaram. Miúcha tinha aprumado bem. O pelo cresceu muito, até parecia uma fêmea de guará, de pelagem comprida, isto a fazia parecer bem maior do que era. O forte latido causava medo em qualquer um. Jeremias tinha certeza que a onça não vinha mais por temer topar com ela; mas se soubesse o tanto que o bicho é besta, nem daria importância. Do tempo em que a encontrou até hoje, Severina não se afastava da cachorra por lei nenhuma.
Onde o pé de um passa, o outro vai atrás. Amizade aflorada sem muito esforço, coisa de irmãos. A intriga de Olga era não entender como eles conversavam de cabeça. Quase não diziam nada e dava certo. Teve certeza disso no dia em que Severina, de cima do murundu, rabeou o olho para
Jeremias; o velho desceu, passou pelo quintal; dos fundos da tapera veio com um tronco e escorou-o na pedra em que ela estava. Bem não subiu e tomou assento, a cachorra saiu da varanda, e, num instante estava ao lado da velha. Até pra resolver algo, nem gastavam opinião de ninguém, logo ajeitavam tudo, só de menear a cabeça.
Na ideia de Severina, a cachorra tinha sido mandada por São Francisco pra servir de companhia. O santo andava sozinho feito ela, mas gostava dos animais; tinha muito trato com os bichos, por isso era tão humilde. Ela que vivia de bater pernas, poderia ter um animal esperto e, Miúcha não nega fogo. Ta certo que, é, muito sem vergonha, mas quando resolve ficar braba, sai de perto; morde de verdade, pra isto não é de brincadeira. O mais engraçadinho nela é o pelo preto no lombo, até parece uma manta. Jeremias é quem nunca tinha visto tamanha esperteza pra dar carreira em pacas, encurralava-as numa facilidade que só vendo. Mantinha sempre as orelhas levantadas, prestando atenção em tudo, como se entendesse a conversa dos outros. Quando falavam com ela, dava um latido, abanava o rabo e tome pulo. Não podia receber nesga de confiança; pesada, por pouco não punha gente no chão. Sabia o jeito de amolecer o coração de Severina depois do ralho. Vinha chegando de mansinho, abanando o rabo, andando de esguelha... Quando sapecava os olhos na dona, não tinha jeito, a velha amolecia toda.
Vira e mexe, Severina caía, quando corriam para acudir, podia saber, foi Miúcha quem pulou nela. A velha mandava o que achasse por perto, mas sempre no rumo errado, pois se acertasse, não ia aguentar de tanto remorso. Além do mais, havia o encanto nos olhinhos de jabuticaba da cachorra; para ela, um choramingado. A danada de tão esperta, sempre arrumava moda nova. Inventou de esconder atrás de Jeremias quando aprontava das suas. Restando a Severina, o seu gutural resmungo.
Quando trouxe da Venda do seu João em Dourado a vestimenta para a criança, enfiou uma rede no negócio. Tinha dinheiro de sobra, Jeremias não se importaria com tal merreca. Desde então, depois da boia, antes de voltar pro roçado, cochilava perto do velho na varanda. Miúcha ficava tão próxima que, ao sair tinha o cuidado de não pisar no animal que, fazia o giro em torno de si e deitava feito uma rodilha. Olga sempre via o animal tão sistemático quanto o dono.
Fiada na ideia de agradar Jeremias, Severina trouxe excelente canivete. Sempre, à hora da sesta, punha-se a escalavrar algum graveto ou unha. Pôs tanto gosto no brinquedo que, do tempo ia esquecido. A velha roncava longe e, o susto em si mesmo, certeiro. Punha o corpo de maneira mais confortável
na rede, daí a pouco, o sono a roubava. A lengalenga acontecia até na hora de voltar pro roçado. No quarto, sempre que tinha sonho ruim, Miúcha puxava a coberta acordando-a. Numa dessas noites, viu Miúcha morrendo, ficou apavorada, levantou de supetão; mas o animal quieto, a espiava à meia luz da lamparina.
No sonho, Severina chamou pelo velho para acudi-la. Ela chorava com a cabeça da cachorra numa mão e corria a outra sobre a pelagem. A boca cheia de baba espumenta. Jeremias usou todo o sortimento de ervas que conhecia, nem o mentrasto escapou, mas nenhuma recuperação. Miúcha soltava ganidos de dor, isso trespassava o coração de Severina que, baixinho, fazia prece ao seu santo protetor.
Não aguentando ver a cachorra agonizar, pegou-a no colo sem sentir o quanto ela estava pesada. Mesmo sem rumo, embarafustou na mata. Miúcha tinha sido ferida pela caranguejeira. Severina sabia que ela não voltava. Queria se pudesse morrer... Jeremias ficou, nem precisava ir, a velha o mandaria voltar. Podiam ter encontrado a aranha, rasgado o bucho, lambuzado a ferida com as tripas, mas a ordinária sumiu.
Severina de olhos turvos subia fazendo o caminho do córrego para o alto da cabeceira. Nem sentia o peso que carregava até que, deparou com uma frondosa laranjeira da terra. Ali seria lugar tranquilo para Miúcha descansar. Com lascas de pedra começou a cavar. Fez uma cova rasa, tampada com roliças pedras. Rodeou com alguns galhos secos. Na prece, não entendeu porque São Francisco de Assis, protetor dos animais, deixou de socorre-la. Ora, pois Deus sabe o que faz!
À sombra da laranjeira, perto do barulho da água corrente, a velha se despediu da companheira. Voltou ao escurecer, arrasada. Não comeu. Sem dizer qualquer palavra... Algumas vezes ainda rabeava o olho, quem sabe Miúcha vinha alegre, pronta pra fazer estripulia. Sentiu o aperto no peito. Passou por Olga, nem olhou para o compadre Jeremias na varanda. No cômodo, chorava baixinho abraçada com a trouxa...
O sonho foi tão ruim quanto o que ela teve há muitas noites. Caiu do murundu, nem gritou. Nesse dia, pela manhã, percebeu que, Jeremias estava aborrecido. Viu no semblante dele, a sua ausência e da cachorra. Estremeceu só de atinar tal coisa... Quando abriu os olhos remelentos, Miúcha estava enrolada na coberta preta, e, ela tiritando na madrugada fria.
Este capítulo é parte integrante do meu romance A Cabeceira.