INTEMPESTIVO

Tomo Coca-Cola com café,
A mãe do Red Bull com wisk.
Inspira-me à reviravolta do desatinado juízo,
Soltando o incrédulo súdito do tempo,
Este meu outro eu mais realista.

Nelci Nunes - O Falador.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

MIÚCHA




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MIÚCHA

Nelci Nunes - O Falador.

Há muito, por aonde ia, Severina não punha a trouxa no alto da cabeça. Chegou sem muita sabença sobre os moradores do Cantão, ou dos que ocupavam a cabeceira. Ela despontou no alto do córrego porque havia perdido o rumo. Para quem errava, de qualquer maneira, o tino impunha algum senso. Nunca pegou gosto em brincar com o perigo. A passada ainda larga; passos de quem não aparenta muito mais idade. Remendos, um para tampar o outro. Sortimento de panos de toda cor, jeito de carregar o que possuía de riqueza.
Bastava. Os pés não perdiam as trincas, mais parecendo chão de barro depois que a água seca. A precata só de vez em quando, pra descanso. A sola muito boa, quase não gasta. Coisa de inigualada estima; tal qual a de São Francisco de Assis. Tisnada de raiva, isso sim! Bastava ver a cachorra com a chinela
na boca pra descer o malho.
Quando metia prosa com alguém, é porque muita necessidade apareceu. Nessas poucas ocasiões, podia-se escutar a rouquidão, perceber o cansaço. Por causa do apego dela, Miúcha parecia que abusava. Esperta demais; qualquer dia sai conversando feito gente, e, Severina ria só de pensar desta maneira. Quando queria mostrar alguma coisa, puxava a velha pela barra da saia. Isto sim, uma admiração. A danada não podia ver uma botina ou pano que, enchia
a boca. Deus sabe, amoitava tudo. Severina se punha de tocaia, até descobrir o rumo de onde ela despontava pra poder desfazer o ninho. Como é que pode! Olga queria ouvir as histórias das andanças de Severina, mas pra velha desembuchar alguma fala custava demais. Não era de ficar indagando da vida dos outros. Quando resolvia prosear, em pouco tempo, encerrava o assunto. Dizia que, “_papagaio velho não pega língua mais...”
Ao meio do dia, sob forte sol, Severina rumou da horta para a tapera trazendo o balaio com as verduras. A boia sem mato e angu não tinha sustança. Vez em quando uma galinha caipira com bastante caldo e farinha de milho. Comida que não pesa na hora do cochilo. Jeremias podia até ficar balançando na cadeira de barriga cheia que, não fazia má digestão.
Neste ínterim de tempo, vinha com o balaio escanchado na cintura, quando foi surpreendida pela cachorra num enorme pulo revirando toda a verdura; com balaio e ela junto. Mal ficou de pé e sentou o sarrafo na direção da fujona. Distante ela vigiava a dona. Ressabiada, abanando o rabo. Severina
largou ofensa sem dó. Olga, da varanda, descansando a mão em cima da barriga, não continha a risada. A velha abaixada pegando os molhos, enchendo numa contrariedade sem tamanho o balaio. Enquanto Miúcha latia em volta. Pensou que, desse jeito a cachorra tinha se zangado. Ficou reparando a boca do bicho, não espumava. Intrigou-se com o que devia ser. Com o sarrafo numa das mãos ia afastando o animal. Restavam apenas algumas verduras fora do balaio e ela latindo cada vez mais. Pos-se de pé para reparar melhor. Foi
quando viu algo escuro em meio à alface. Cutucou, e, saiu uma peluda caranguejeira procurando outro lugar pra esconder. Amassou-a embaixo de uma pedra e foi abraçar a cachorra.
Em casa, fechada no cômodo, foi fazer prece a São Francisco de Assis. Quieta, Miúcha punha a pata por cima do focinho, enquanto esperava a dona sair. De perto do fogão, Olga chamou baixinho. Severina acudiu, tomou das mãos dela a lata com água, atiçou o fogo, a criança chegando. Assim que passou a cachorra fora, ela correu para o roçado. Logo Jeremias amuou na varanda. Estava nos nervos.
Os dias voaram. Miúcha tinha aprumado bem. O pelo cresceu muito, até parecia uma fêmea de guará, de pelagem comprida, isto a fazia parecer bem maior do que era. O forte latido causava medo em qualquer um. Jeremias tinha certeza que a onça não vinha mais por temer topar com ela; mas se soubesse o tanto que o bicho é besta, nem daria importância. Do tempo em que a encontrou até hoje, Severina não se afastava da cachorra por lei nenhuma.
Onde o pé de um passa, o outro vai atrás. Amizade aflorada sem muito esforço, coisa de irmãos. A intriga de Olga era não entender como eles conversavam de cabeça. Quase não diziam nada e dava certo. Teve certeza disso no dia em que Severina, de cima do murundu, rabeou o olho para
Jeremias; o velho desceu, passou pelo quintal; dos fundos da tapera veio com um tronco e escorou-o na pedra em que ela estava. Bem não subiu e tomou assento, a cachorra saiu da varanda, e, num instante estava ao lado da velha. Até pra resolver algo, nem gastavam opinião de ninguém, logo ajeitavam tudo, só de menear a cabeça.
Na ideia de Severina, a cachorra tinha sido mandada por São Francisco pra servir de companhia. O santo andava sozinho feito ela, mas gostava dos animais; tinha muito trato com os bichos, por isso era tão humilde. Ela que vivia de bater pernas, poderia ter um animal esperto e, Miúcha não nega fogo. Ta certo que, é, muito sem vergonha, mas quando resolve ficar braba, sai de perto; morde de verdade, pra isto não é de brincadeira. O mais engraçadinho nela é o pelo preto no lombo, até parece uma manta. Jeremias é quem nunca tinha visto tamanha esperteza pra dar carreira em pacas, encurralava-as numa facilidade que só vendo. Mantinha sempre as orelhas levantadas, prestando atenção em tudo, como se entendesse a conversa dos outros. Quando falavam com ela, dava um latido, abanava o rabo e tome pulo. Não podia receber nesga de confiança; pesada, por pouco não punha gente no chão. Sabia o jeito de amolecer o coração de Severina depois do ralho. Vinha chegando de mansinho, abanando o rabo, andando de esguelha... Quando sapecava os olhos na dona, não tinha jeito, a velha amolecia toda.
Vira e mexe, Severina caía, quando corriam para acudir, podia saber, foi Miúcha quem pulou nela. A velha mandava o que achasse por perto, mas sempre no rumo errado, pois se acertasse, não ia aguentar de tanto remorso. Além do mais, havia o encanto nos olhinhos de jabuticaba da cachorra; para ela, um choramingado. A danada de tão esperta, sempre arrumava moda nova. Inventou de esconder atrás de Jeremias quando aprontava das suas. Restando a Severina, o seu gutural resmungo.
Quando trouxe da Venda do seu João em Dourado a vestimenta para a criança, enfiou uma rede no negócio. Tinha dinheiro de sobra, Jeremias não se importaria com tal merreca. Desde então, depois da boia, antes de voltar pro roçado, cochilava perto do velho na varanda. Miúcha ficava tão próxima que, ao sair tinha o cuidado de não pisar no animal que, fazia o giro em torno de si e deitava feito uma rodilha. Olga sempre via o animal tão sistemático quanto o dono.
Fiada na ideia de agradar Jeremias, Severina trouxe excelente canivete. Sempre, à hora da sesta, punha-se a escalavrar algum graveto ou unha. Pôs tanto gosto no brinquedo que, do tempo ia esquecido. A velha roncava longe e, o susto em si mesmo, certeiro. Punha o corpo de maneira mais confortável
na rede, daí a pouco, o sono a roubava. A lengalenga acontecia até na hora de voltar pro roçado. No quarto, sempre que tinha sonho ruim, Miúcha puxava a coberta acordando-a. Numa dessas noites, viu Miúcha morrendo, ficou apavorada, levantou de supetão; mas o animal quieto, a espiava à meia luz da lamparina.
No sonho, Severina chamou pelo velho para acudi-la. Ela chorava com a cabeça da cachorra numa mão e corria a outra sobre a pelagem. A boca cheia de baba espumenta. Jeremias usou todo o sortimento de ervas que conhecia, nem o mentrasto escapou, mas nenhuma recuperação. Miúcha soltava ganidos de dor, isso trespassava o coração de Severina que, baixinho, fazia prece ao seu santo protetor.
Não aguentando ver a cachorra agonizar, pegou-a no colo sem sentir o quanto ela estava pesada. Mesmo sem rumo, embarafustou na mata. Miúcha tinha sido ferida pela caranguejeira. Severina sabia que ela não voltava. Queria se pudesse morrer... Jeremias ficou, nem precisava ir, a velha o mandaria voltar. Podiam ter encontrado a aranha, rasgado o bucho, lambuzado a ferida com as tripas, mas a ordinária sumiu.
Severina de olhos turvos subia fazendo o caminho do córrego para o alto da cabeceira. Nem sentia o peso que carregava até que, deparou com uma frondosa laranjeira da terra. Ali seria lugar tranquilo para Miúcha descansar. Com lascas de pedra começou a cavar. Fez uma cova rasa, tampada com roliças pedras. Rodeou com alguns galhos secos. Na prece, não entendeu porque São Francisco de Assis, protetor dos animais, deixou de socorre-la. Ora, pois Deus sabe o que faz!
À sombra da laranjeira, perto do barulho da água corrente, a velha se despediu da companheira. Voltou ao escurecer, arrasada. Não comeu. Sem dizer qualquer palavra... Algumas vezes ainda rabeava o olho, quem sabe Miúcha vinha alegre, pronta pra fazer estripulia. Sentiu o aperto no peito. Passou por Olga, nem olhou para o compadre Jeremias na varanda. No cômodo, chorava baixinho abraçada com a trouxa...
O sonho foi tão ruim quanto o que ela teve há muitas noites. Caiu do murundu, nem gritou. Nesse dia, pela manhã, percebeu que, Jeremias estava aborrecido. Viu no semblante dele, a sua ausência e da cachorra. Estremeceu só de atinar tal coisa... Quando abriu os olhos remelentos, Miúcha estava enrolada na coberta preta, e, ela tiritando na madrugada fria.
Este capítulo é parte integrante do meu romance A Cabeceira.



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