INTEMPESTIVO

Tomo Coca-Cola com café,
A mãe do Red Bull com wisk.
Inspira-me à reviravolta do desatinado juízo,
Soltando o incrédulo súdito do tempo,
Este meu outro eu mais realista.

Nelci Nunes - O Falador.

sexta-feira, 10 de maio de 2013




O COMPADRE MANÉ DE LANA

                                               Nelci Nunes - O Falador.


O COMPADRE MANÉ DE LANA

Mata adentro, Jeremias ia pensativo, calmo. O malfeito, pesaroso. Ele, sabedor de que isso aconteceria, tinha a coisa remoída, inconsciente. Pareceu-lhe desta maneira; qualquer dia... Rumava pelo mato, fazendo trapaças, desajustes, lamúrias com o pensamento, procurando enganar a si mesmo. Queria esquecer, não via jeito. Olga surgiu agora como uma mulher fogosa, dona do seu nariz. Via a situação áspera, calejada, verdadeira pisadura de animal. Gostava do seu canto sossegado, sem botar briga com ninguém. Mas a mulher o metera nestes panos sujos. A coisa se fez recalcada demais pra ser esquecida. Temia que fosse o seu sobrinho o traidor. Talvez, algum dia, mas a desfeita seria pior. Desconfiança não, certeza.
Contornou uma das curvas do córrego, atravessando por sobre enorme peroba tombada. A água corria feito um cordão; cristalino, refletia o sol. A luminosidade passava por entre a copa das árvores. De repentina, surgiu, a inesperada e indesejada vontade de chorar. Segurou o quanto pode e firme...
Passou pelo engana bode ao lado do mata burro, o rancho do compadre Mané de Lana não estava longe. Havia ficado tanto tempo perambulando pela mata que não percebeu a noite chegar. As lamparinas iluminavam o casebre. A luz trêmula, clarão dos pavios, saía pelas frestas. Silêncio; aproximou-se calado, não bateu palmas, costume, mas deixou de lado. Refez o semblante, teve dúvida, quis recuar, notou que, era tarde para isso. Homem de palavra, não seria desta vez que os burros entrariam na água. Resolvido, andara muito
pela mata, matutou demais.
O compadre Mané de Lana é homem sistemático. Os animais em seu terreiro morriam de velhice. Ninguém ousava matar uma galinha do seu quintal. Comadre Ana, quando queria comer o bicho, comprava do vizinho, limpava por lá mesmo, depois, trazia pra casa. Temia. Pavor a sangue. Toda vez que falava, repetia a mesma fala. Mané de Lana tinha um fraco. O dia que não fazia barganha passava aborrecido. Matava porcos contra a sua vontade, a coisa acontecia por exigência das trocas. Acreditando não ser o porco bicho de Deus, sofria menos.
Por onde anda, leva a tiracolo um bornal. Dentro, enrolado em papel, envolto por plástico, amarrado com elástico, coberto pelo lenço, vai o seu dinheiro. Na cinta, o facão velho, cabo de chifre, carcomido. O caldeirão pequeno, com tampa presa por tiras de pano, também vai tilintando na cintura. Nunca fazia cerimônia na casa de ninguém, se o chamavam para a boia; nem por modos fazia recusa, destampava o vasilhame e o enchia. Para ele não existia desgraça, qualquer mal sucedido alheio, era coisa do destino, acontecida porque Deus quis. Sem letra e nenhuma vontade de aprender, tinha jeito pra solucionar tudo. Adorava uma eleição. Nesta ocasião ia à cidade acompanhando a mulher. Pura ciumeira, dizia ela. Às vezes forçava a barra para entrar na cabine junto. Levava logo um pito, pois o voto é secreto. A
irritação certeira acontecia quando o mesário pintava-lhe o dedo na hora de assinar. Saía com cara de quem chupou limão. Só não se engana com números, estes ele conhece bem. Ninguém lhe passou manta nenhuma no dinheiro. Vários dias antes da eleição ele treinava escrevendo os números dos candidatos. Aquele que fosse mais falado no Cantão seria o da sua preferência. Sempre fez questão de votar. Pouco lhe importava pra que servia eleição, comparecia a todas.
Comadre Ana conhecia o tipo, sabia como pirraça-lo direitinho. Facilmente causava-lhe alguma irritação. Bastava pedir dinheiro para a coisa toda ir pro melado. Ana só não tolerava a falta de modos do marido. Dizia sempre... Esse sujeito tem que ser mais educado. Quando chamava à porta
dos outros e o dono demorasse a atender, ia entrando de qualquer jeito pela casa procurando morador. Quando davam por ele, aparecia na cozinha, mexendo no bule. Muitas vezes, ralhavam mais que depressa, fazia como quem não escuta. Qualquer dia topa com alguém pelado, vai dar briga.
Sempre, quando faz suas andanças, pensando em visitar parentes ou vizinhos, ela se esquiva, vai apenas pela obrigação de esposa. Aonde ele assenta dilata, conversa com um, perde muito tempo por conta de outro. É palpiteiro, enxerido, mata a mulher de vergonha. Contudo, ela se acostumara às suas manotas...
Jeremias passou as mãos pelo rosto úmido, caminhou até o jirau. A água corria dia e noite trazida por bambus. Seu semblante deveria; talvez, denunciasse a desordem dos pensamentos. Estendeu as mãos calosas passando-as pela água. Lavou várias vezes o rosto. A rala barba começava aparecer. Matutou. Enxugou as mãos e o rosto na fralda da camisa.
Bateu na porta. Mané de Lana veio atender segurando uma lamparina. Abriu de soslaio, ressabiado ergueu a lamparina à altura do rosto de Jeremias. Pensou ter acontecido uma tragédia, não estava acostumado a receber visitas àquelas horas. No Cantão, escureceu é tarde.
O compadre Jeremias sinalizou chamando-o para o terreiro. Mané de Lana mandou a mulher se aquietar que era um particular. Perto do jirau havia algumas imbaúbas. O vento entrecortava-as provocando barulho e queda de folhas. A todo o momento passava ligeiro alguma ave noturna. Distante da
casa certificou-se de que ninguém ouviria a conversa.
 Não fez muitos rodeios, foi logo entrando no assunto que o trouxera de longe. Relatou o atrevimento de Pedro em ir à sua tapera provocar a desonra, por abaixo a sua moral. Talvez, a mulher tenha-se mostrado fraca, mas a presença constante do rapaz também ajudou. Agora a necessidade de reparar o erro sem que a conversa se espalhe. A coisa é mais severa do que parece, o moço montou tocaia, viu a mulher tomando banho. Depois foi para a tapera, usaram o estrado...
Percebendo que, a honra do compadre Mané de Lana fora atingida, ele se propôs a consertar o dano causado ao amigo, impingindo no filho uma tremenda coça. Quis entrar e trazer o rapaz. Jeremias não permitiu. A preocupação era em não deixar a notícia correr. O certo era guardar silêncio e
manter o afilhado bem perto do pai. Olga, será engambelada, sequer perceberá que alguém sabe do acontecido. O afilhado não deve aparecer mais na tapera, nunca.
Houve momento de grande silêncio entre os compadres. Naquele canto perdido de mundo, apenas as aves noturnas... O frio apertava, Jeremias resolveu ir embora. Mané de Lana não tinha onde enfiar a cara. Permaneceu no terreiro durante algum tempo a meditar o malfeito.
Caminhado pela mata escura, Jeremias engolia seco, continha a vontade de chorar. Mesmo que fosse, turrão demais para isso. No seu coração Olga já estava perdoada. Ele era mesmo um fraco. Aquele rapaz dos infernos não deveria mais se aproximar dele.
Ao longe, estranho barulho. Alguma armadilha pra paca pensou... No cercado em forma de gaiola, o lobo guará se debatendo para fugir. A certa distância, usando um galho, abriu a porta. O animal sumiu ligeiro no escuro da mata...
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário